Flávio foi enganado das razões da sua vitória em função da lavada que a direita deu no Congresso
Carlos Andreazza fala sobre a virada inédita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), se reelegendo para um quarto mandato. Crédito: TV Estadão
A mobilização lulojanonista não foi espuma para convertidos. No mundo real, onda convertedora de nulos, arrastadora de votos para Lula, capaz de tirá-los, aos milhões, de Flávio Bolsonaro; de explorar a ressaca daquele eleitor que, rejeitando mais o presidente que o desafiante no primeiro turno, terá passado três semanas diante da própria escolha, condenado a contemplar o que seria um governo do filho de Jair.
A projeção da imagem do Flávio presidencial – subsidiada por um candidato à vontade para exibir o que é – foi-lhe feia, ao que se somaria a campanha que o apregoava como supressor de direitos, enquanto Lula corrompia a máquina para prometer até Pix de R$ 5 mil.

Abraçado a André Janones, Lula foi eleito ontem para seu quarto mandato na Presidência. Foto: Tiago Queiroz/Estadão
Se a eleição no primeiro turno fora sobre Lula e teve como produto uma advertência ao incumbente, a do segundo foi sobre o medo de Bolsonaro no poder. Considere-se a hipótese de o eleitor ter afinal optado por Lula frente ao que seria o capital político na mão de um Bolsonaro: quase autossuficiente no Senado e a indicar três ministros do Supremo.
Na disputa entre rejeitados, para o que contaria o desaparecimento tático dos grandes eleitores do STF no segundo turno, o eleitor terá preferido transferir a rejeição maior de Lula para Flávio. A previsibilidade de quatro anos ruins à imprevisibilidade de quatro anos ruins.
O exame dos dados de votação no segundo turno comunica que Lula bateu combinadamente todas as condições – improváveis – para a vitória. O volume da queda de abstenção informa sobre a ordem de grandeza do feito: quase três milhões de votantes a mais no segundo turno, a imensa maioria dos quais mobilizada a sair de casa pela blitz lulojanonista. Gente que não votara antes por acreditar na soberba de que Lula venceria facilmente. Veio o susto.
Não se tratou de queda de abstenção com chance de distribuição equilibrada. O colégio eleitoral aumentou concentradamente em redutos com eleitores potenciais do presidente. Foi ataque dirigido. Uma enxurrada, e não apenas no Nordeste – que lhe daria 2,9 milhões de votos a mais. Houve baixa de abstenção em porções lulistas de Estados bolsonaristas, como São Paulo e Rio de Janeiro.
O crescimento de Lula no Sudeste fez – foi – a diferença. Foram quase cinco milhões de votos a mais, em relação ao primeiro turno. Houve a virada em Minas Gerais, Estado no qual terminaria com 100 mil votos de frente, depois de um revés por 600 mil. Ganhou cerca de 1,2 milhão de votos. No Rio de Janeiro, baixou a vantagem de Flávio pela metade: de 1,6 milhão para 600 mil. Em SP, com 2,6 milhões de votos a mais, estreitou a margem de Flávio: de cerca de 3,4 milhões para 2 milhões.
Lula venceu a eleição no Sudeste, região em que mais tomou votos do adversário – e em que terá consolidado a preferência dos eleitores de Augusto Cury, Renan Santos e até Ronaldo Caiado, outra condição fundamental para a virada, eleitores que o marçalismo desprezara.


