O choro contido, a hesitação antes de virar as costas e a sensação de aperto no peito no portão da escola nem sempre têm relação com o que a criança está sentindo. Em muitos casos, o sofrimento é dos pais, e fala mais sobre vínculos, expectativas e medos do mundo adulto do que sobre a adaptação infantil.
A avaliação é do psicólogo Rodrigo Silveira Costa (CRP 24/01029) e docente da Afya Ji-Paraná, que explica que a escola representa um marco simbólico importante: o primeiro grande passo da criança rumo à autonomia. “Para muitos pais, esse momento é vivido como um luto simbólico. É a constatação concreta de que o filho está crescendo e que o cuidado passa a ser compartilhado com o mundo externo”, explica.
Segundo o especialista, o desconforto também está ligado à sensação de perda de controle. Mesmo quando a escola é segura e acolhedora, deixar o filho exige um exercício profundo de confiança. “O psiquismo do adulto pode interpretar a separação como exposição ao risco, gerando ansiedade antecipatória”, afirma.
Ambiguidade, insegurança e sensação de vazio estão entre as emoções mais frequentes nesse processo. Para o psicólogo, reconhecê-las sem culpa é essencial. “Esses sentimentos são subprodutos de um vínculo de apego saudável. Sentir dor na separação não significa fraqueza nem que a escola seja ruim; significa que o vínculo é forte”, pontua.
Ele orienta que os pais nomeiem a emoção para não serem dominados por ela. “Dizer a si mesmo ‘estou com medo, e isso é meu instinto de proteção, não um perigo real’ ajuda a colocar a emoção no lugar certo.”
Um ponto de atenção é o impacto direto do comportamento dos pais na adaptação da criança. “A criança funciona como um termômetro emocional. Se o adulto demonstra excesso de hesitação ou sofrimento, a mensagem implícita é de que a escola é um lugar inseguro”, alerta Rodrigo.
Nessas situações, a criança pode desenvolver uma ansiedade de separação reativa, chorando não por rejeitar a escola, mas para tentar “cuidar” emocionalmente do pai ou da mãe.
Dicas práticas para um adeus mais leve
-
Entre as atitudes que ajudam a tornar o momento da separação mais seguro estão:
-
Criar rituais de despedida, como um cumprimento especial ou um gesto simbólico;
-
Nunca sair escondido, preservando a confiança da criança;
-
Falar da escola de forma positiva antes do início das aulas;
-
Controlar a linguagem corporal, mantendo voz calma e postura tranquila.
“Previsibilidade gera segurança. A criança precisa perceber, pelo corpo e pela fala do adulto, que aquele ambiente é confiável”, resume o psicólogo.
Quando buscar apoio psicológico
O sofrimento deixa de ser esperado quando se torna persistente e incapacitante. Sinais de alerta incluem ansiedade que não diminui após semanas, hipervigilância constante, sintomas físicos como insônia e palpitações e prejuízo à vida profissional ou social.
Nesses casos, a orientação é buscar apoio especializado. “Cuidar da saúde emocional dos pais também é uma forma de cuidar da criança”, reforça.
Para os pais que se sentem culpados por sofrer, Rodrigo deixa um recado direto: “Romper a simbiose dói. A escola não substitui a família; ela expande o mundo da criança. O sofrimento é o preço de um amor bem construído, mas deve servir como ponte para o crescimento, não como âncora para a culpa.”
Rodrigo Silveira Costa
Psicólogo CRP 24/01029
Docente Afya
Unidade de Ji-Paraná/RO