As dificuldades de Lula para se reeleger continuam presentes em igual medida, que não é apenas aquela de números apertados exibidos por mais de dezena de pesquisas. É o profundo cansaço, descrédito e insatisfação generalizadas, o principal impulso da oposição.
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Não se pode excluir que a farra de promessas irresponsáveis nesta reta final produza um resultado circunstancial, isto é, uma virada sobre o primeiro turno. Teria chances praticamente nulas, porém, de produzir nesse contexto “estrutural” uma mudança de rumo geral do País.
Lula falou tanto na sua vida política de “heranças malditas” – a culpa sempre foi de algum outro – que nunca recebeu. Até ser alcançado por uma de verdade: a tal maldição do incumbente, um fenômeno de características universais (os exemplos vêm de países muito diferentes e muito distantes entre si).

Flávio Bolsonaro e Lula durante debate Band/Estadão no último domingo Foto: Werther Santana/Estadão
Ao descrédito planetário com o funcionamento de democracias liberais e o preço pago por incumbentes soma-se, no Brasil, o descrédito da figura de um populista em visível ocaso. É o que tornou tão difícil para a campanha de reeleição navegar contra grandes movimentos de opinião, razoavelmente previsíveis, porém quase sempre incontroláveis (no sentido de facilmente manipuláveis).
A campanha vem há meses prometendo benesses para responder diretamente ao que pesquisas indicam sobre demandas de segmentos sociais ou econômicos específicos, mas percebe-se agora com mais clareza que o problema nunca foi satisfazer a “clientelas” determinadas. Não dá para tratar dessa maneira o que parece ser o “espírito de uma época”.
No caso brasileiro é claramente um sentido de mudança difuso, porém muito presente, com alta probabilidade (dada a profundidade da crise) de permanecer forte mesmo com uma vitória da oposição – hoje o cenário mais provável. Flávio (ou qualquer outro que estivesse em seu lugar) não terá um minuto sequer de lua de mel.
Ele não precisou até aqui convencer ninguém de que é a “melhor” das mudanças, apenas que seria a mudança. E o que poderia ter sido na candidatura o lançamento de medidas, especialmente no campo econômico, foi totalmente bloqueado pelo leilão de promessas num jogo de populismo para combater populismo. Com o que se pode ganhar uma eleição, mas dificilmente um futuro.
Como se previa, a insegurança jurídica atingiu também as eleições, dada a avançada degradação dos tribunais superiores e a escancarada politização no topo do Judiciário. Os próprios integrantes do Supremo admitem que o País está diante de um abismo institucional, e a única divergência entre eles se refere à vitória de quem acelerará mais esse processo.



