Um dos aspectos mais reveladores do segundo turno da eleição presidencial é o enfraquecimento do argumento de que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro representaria uma ameaça à democracia brasileira. Mais surpreendente ainda é que a própria campanha de Lula parece ter reconhecido os limites eleitorais dessa narrativa.
Em vez de concentrar esforços na denúncia dos riscos institucionais associados ao retorno do bolsonarismo ao poder, Lula tem privilegiado temas mais próximos das preocupações cotidianas dos eleitores. Sua defesa da redução da maioridade penal para crimes hediondos, contrariando uma posição histórica do PT, é particularmente ilustrativa dessa mudança.

Flávio Bolsonaro e Lula durante debate Band/Estadão no último domingo Foto: Werther Santana/Estadão
A explicação é essencialmente eleitoral. Em disputas majoritárias competitivas, candidatos têm incentivos para moderar posições e se aproximar das preferências do eleitor mediano. Quando a polarização mobiliza bases relativamente estáveis, a vitória depende da capacidade de conquistar eleitores menos identificados com os dois campos.
Esse movimento não se restringe a Lula. Flávio Bolsonaro também procura ampliar seu apelo eleitoral ao se aproximar de pautas tradicionalmente associadas à esquerda, como o fim da escala de trabalho 6×1. A convergência estratégica dos dois candidatos revela que a competição pelo eleitor mediano continua operando mesmo em um ambiente de intensa polarização.
A estratégia de Lula sugere, portanto, uma constatação incômoda para setores da esquerda: a defesa da democracia, embora continue mobilizando parte do eleitorado, parece ter perdido centralidade na disputa pelo voto decisivo.
Isso não significa que as ameaças democráticas tenham desaparecido. Há diferenças fundamentais entre a existência de riscos institucionais, a credibilidade dessas ameaças e a importância que os eleitores lhes atribuem no momento de votar. Uma ameaça pode ser real e, ainda assim, ter pouco peso eleitoral, seja porque os eleitores não a consideram suficientemente crível, seja porque confiam na capacidade das instituições de neutralizá-la.
A competitividade de Flávio Bolsonaro reforça essa interpretação. Apesar da associação de seu campo político com os ataques às instituições e os acontecimentos de 8 de Janeiro, uma parcela expressiva do eleitorado parece disposta a considerar sua candidatura uma alternativa de governo.
O paradoxo é que o próprio Lula, ao deslocar sua campanha para temas como segurança pública, contribui para normalizar a disputa. A eleição deixa de ser apresentada primordialmente como uma escolha existencial entre democracia e autoritarismo e passa a ser disputada em torno de políticas públicas, desempenho governamental e expectativas de mudança.
É possível que essa mudança reflita também uma percepção mais ampla de resiliência institucional. Depois de sucessivas ameaças durante o governo Jair Bolsonaro, a democracia brasileira demonstrou capacidade de preservar suas instituições, assegurar a competição eleitoral e manter aberta a possibilidade de alternância pacífica de poder. Essa experiência pode ter fortalecido entre os eleitores a percepção de que as instituições são suficientemente robustas para resistir a ataques e capazes de conter e punir eventuais novas investidas antidemocráticas.
Paradoxalmente, quanto mais eficazes se mostram as instituições democráticas na contenção de ameaças autoritárias, menor pode ser a capacidade dos candidatos de mobilizar o eleitorado com o argumento de que a própria democracia está em perigo.
Assim, o eleitor mediano parece menos convencido de que a sobrevivência da democracia depende da vitória de um candidato específico. Pode acreditar que eventuais tentativas de subverter as regras democráticas encontrarão resistência institucional e que seus responsáveis serão punidos. Para esse eleitor, o que está em jogo no domingo não é necessariamente a continuidade do regime democrático, mas quem terá melhores condições de governar o País.
Se essa interpretação estiver correta, a principal mensagem desta eleição é que o discurso da ameaça democrática já não basta para vencer eleições. Até mesmo Lula parece ter compreendido isso.



