Um fantasma ronda o novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva: o fantasma da delação da lobista Roberta Luchsinger. Todos os aliados de Lula se uniram para tentar exorcizar essa ameaça: o próprio presidente reeleito buscou chamar a investigada de “picareta” e os advogados ligados ao PT tentavam acusar uma manobra eleitoral por trás da decisão de Roberta conceder a entrevista no dia 17 de outubro, um dia antes do primeiro debate entre os candidatos à Presidência no segundo turno da eleição.
A lobista estava à vontade. E se mostrava muito contrariada pela forma como havia sido tratada por Lula em uma de suas sabatinas, durante a campanha. E deixava claro isso em suas respostas. Disse então aos jornalistas que pretendia fechar um acordo de delação premiada com a Polícia Federal (PF) ou com o Procuradoria Geral da república (PGR) e afirmou que não irá poupar nem o presidente da República. Luchsinger mantinha relações com o filho mais velho de Lula, Fábio Luis Lula da Silva, o Lulinha, de quem era amigo.
A empresária afirmou então: “Vou fazer uma delação premiada porque não serei eu o boi de piranha”. O que Roberta pode apresentar como prova para corroborar suas declarações? Pode indicar aos investigadores onde encontrar pistas que levem até os movimentos de Lulinha dentro da Esplanada dos Ministérios? O inquérito do caso está sendo relatado pelo ministro André Mendonça, do Supremo tribunal Federal (STF), a quem os petistas acusam de se comportar como um aliado da família Bolsonaro na Corte.
Quais os próximos passos dessa investigação? A defesa de Lulinha nega que o filho do presidente tenha se envolvido em corrupção ou tráfico de influência no governo. O pai alegou mais uma vez que o filho “sabia” que não podia errar e reafirmou que, se Fábio fez algo errado, devia pagar, acrescentando que acreditava na inocência do filho.
Mas há muita coisa a explicar no papel de Lulinha e em suas andanças com a lobista. Essa foi uma das apostas de Flávio Bolsonaro para questionar seu adversário durante toda a campanha do segundo turno das eleição, quando repetia a frase: “Fala tudo, Roberta”. A Secretaria de Comunicação da Presidência da República divulgou então uma nota, dizendo que o presidente não manteve contatos com a lobista e desconhecia os relatos feitos por Luchsinger em sua entrevista.
A origem na fraude do INSS
A lobista e o filho do presidente são investigados pela PF por tráfico de influência, uma investigação que nasceu durante a apuração das fraudes contra milhões de aposentador do INSS. Reportagem do Estadão havia mostrado, logo depois da entrevista da lobista, que ela havia recebido R$ 4,1 milhões de uma empresa alvo da PF que foi representada no governo federal pelo empresário Amauri Rodrigues Pinha.
Trata-se da EDP Infraestrutura e Pavimentação, que pertence ao empresário Eduardo José Barros Costa, conhecido como Eduardo DP, ou Eduardo Imperador, alvo da PF. Pinha é um engenheiro que foi citado pela lobista em sua entrevista para a CNN Brasil, como amigo e parceiro de negócios de Lulinha.
Roberta teria como provar que parte do dinheiro que ela recebeu de Pinha foi parar no bolso de Lulinha? Como o Estadão mostrou, Pinha é o presidente do conselho de Administração da Empresa Construtora Brasil (ECB), que é uma braço da construtora portuguesa Mota Engil. Trata-se de uma empresa importante que detém diversos contratos com a administração pública.
Alguns são bilionários, como o das obras na Refinaria Duque de Caxias (Reduc), no Rio – seu valor é de R$ 4,4 bilhões. A empresa também venceu a concorrência para a construção do Túnel Santos-Guarujá, uma PPP bilionária do governo de São Paulo.
São esses bilhões que Roberta pôs no colo de Lulinha durante a entrevista. De acordo com ela, o grupo do qual Pinha faz parte teria R$ 2 bilhões em contratos com o governo federal. Ela relacionou esses contratos com o filho do presidente, aquele a quem Lula já tratou uma vez como o Ronaldinho do Negócios.
A lobista, no entanto, não detalhou naquela oportunidade o que havia de ilegal na atuação de Lulinha ou mesmo se ele havia atuado para favorecer a empresa, cometendo um possível tráfico de influência dentro do governo. Lulinha e Pinha são vizinhos em São Paulo, onde o filho do presidente tem um apartamento na zona sul da cidade.
“Não estou dentro dessa história, mas conheço essa história”, afirmou a lobista. O Estadão mostrou ainda que em 10 de setembro de 2024, Pinha foi um dos representantes da EDP num encontro com o diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Fabrício de Oliveira Galvão.
Os pagamentos para a lobista
Os dois trataram, então, de contratos para obras públicas, conforme conta na agenda pública da reunião. Coincidentemente, foi nessa época que foram feitos os pagamentos das empresas de Eduardo DP a Luchsinger. De acordo com o relatório do Coaf, obtido pelo Estadão, a EDP Infraestrutura e Pavimentação pagou R$ 2,2 milhões à RL Consultoria e Intermediações, que pertence a Roberta, entre setembro de 2024 e março de 2025.
Mas este não é o único caso no STF que ameaça o novo governo Lula. O Banco Master, com suas ramificações no PT – caso do senador reeleito Jaques Wagner (PT-BA) –, é outro que paira sobre o novo mandato. Até porque ele também ameaça ministros da Corte, como Alexandre de Moraes, Dias Tofolli e Nunes Marques.
A crise no Supremo é outro fantasma que assombrará Lula em seu novo mandato. As investigações, a exemplo daquelas sobre Lulinha, também estão nas mãos de André Mendonça. E há ainda muito a esperar aqui também de acordos de delação premiada.
Por fim, outra área, próxima da Justiça não será resolvida pela ação em rede social do deputado federal André Janones (Rede-MG): a crise da Segurança Pública no País. Depois de três mandatos sem criar nem mesmo um ministério da Segurança Pública, como fizera Michel Temer (MDB), Lula terá de mostrar que é capaz de apresentar uma política pública eficiente que seja alternativa à proposta de classificar as facções criminosas como organizações de tipo terrorista.
Lula se recusou a criar uma Agência Nacional Antimáfia, como defendia o promotor Lincoln Gakiya e o ex-secretário nacional de Segurança Pública Mário Sarrubbo pretendia. A resistência em uma ação coordenada nacionalmente contra o crime organizado e o histórico preconceito do PT aos temas ligados à Segurança Pública se materializaram, segundo o coronel José Vicente Silva Filho, no ato falho de Lula no debate da TV Globo, quando falou em “acabar com a polícia”, em vez de dizer “milícia”.




