Testemunha de defesa de religioso braço direito de Dorathy Stang é assassinado em emboscada

Enquanto isso, a grilagem e o desmatamento avança sobre as áreas de assentamentos criados", aponta.

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O mototaxista Marcio Rodrigues dos Reis, de 33 anos, foi assassinado a golpes de faca no pescoço, durante emboscada em estrada vicinal entre as cidades de Anapu e Pacajá, sudoeste do Pará.

Ameaçado de morte, ele era a principal testemunha de defesa do padre José Amaro Lopes de Sousa e havia negado a participação do religioso em suposta ocupação de uma fazenda, segundo nota divulgada nesta sexta pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Padre Amaro havia sido preso em março de 2018, em Anapu, e foi liberado do presídio de Altamira, por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), suspeito de comandar uma ocupação na Fazenda Santa Maria.

Segundo a CPT, o mototaxista Marcio teria sido pressionado a prestar depoimentos incriminando Padre Amaro, mas ele acabou negando a participação do padre. O religioso era considerado braço direito da missionária Dorothy Stang, assassinada em 2005 em Anapu, dando continuidade ao trabalho de defesa os direitos humanos, assentamento de sem-terra e as reformas fundiária e agrária na região, marcada por confitos de terra.

De acordo com CPT, o mototaxista Marcio foi morto na noite da última quarta (4). Ele estava trabalhando quando foi chamado para levar um passageiro na zona rural e, antes de chegar ao destino, o passageiro desferiu os golpes. A vítima não teve como reagir e morreu no local do crime.

Desde 2015, quinze trabalhadores rurais foram mortos em Anapu, segundo a CPT no Pará. A Polícia Civil informa que um inquérito foi instaurado e que a delegacia de Pacajá, com o apoio do Núcleo de Inteligência da Instituição, apura o caso.

Entenda o caso

Fazenda Santa Maria é incendiada no Pará. — Foto: Reprodução/TV Liberal

Fazenda Santa Maria é incendiada no Pará. — Foto: Reprodução/TV Liberal

Localizada na Gleba Bacajá, a fazenda Santa Maria foi incendiada em abril de 2017 e atacada por cerca de oito homens, que chegaram atirando. O caso é investigado pela delegacia de Anapu. A área ficou internacionalmente conhecida devido à atuação da missionária norte-americana Dorothy Stang.

Segundo a CPT, o mototaxista Marcio dos Reis fez parte, em 2016, do acampamento de famílias sem-terra que reivindicava assentamento na fazenda, ocupada pelo fazendeiro Silvério Albano Fernandes.

Uma ação judicial foi iniciada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) de Altamira, a fim de arrecadar o imóvel alegando ser terra pública federal. A Justiça Federal determinou empossamento, mas houve recurso e o caso aguarda julgamento pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1).

Um acordo entre acampados e fazendeiro foi mediado pelo Governo do Estado e Ouvidoria Agrária, em 2016. Meses depois, segundo a CPT, um grupo de fazendeiros e pistoleiros fortemente armados invadiu, ateou fogo e destruiu o acampamento, expulsando as famílias. O grupo teria sido liderado pelo fazendeiro Silvério Fernandes. O G1 tenta contato com a defesa dele, mas ainda não obteve retorno.

Em março de 2017, um grupo de agricultores, incluindo o mototaxista Marcio tentou continuar o acampamento, quando ele foi preso pela polícia local de Anapu, suspeito de crimes de esbulho e posse de arma. Ele permaneceu em prisão preventiva por cerca de nove meses, tendo liberdade em dezembro de 2017.

Padre José Amaro sai da prisão em Altamira. — Foto: Reprodução/ TV Liberal

Padre José Amaro sai da prisão em Altamira. — Foto: Reprodução/ TV Liberal

Ao ser preso, o padre Amaro foi levado para o mesmo presídio do mandante do assassinato de Dorothy Stang, fazendeiro Regivaldo Pereira Galvão, conhecido como “Taradão”. Galvão foi preso em setembro de 2017, 12 anos após o crime.

À época, a CPT divulgou uma nota afirmando que a prisão preventiva da liderança rural Padre Amaro “é uma medida que busca satisfazer interesses de latifundiários” da região do sudoeste do estado. A nota alegava que a decisão não teria se baseado em fatos concretos, mas em depoimentos de fazendeiros e de outras pessoas contrárias ao trabalho do padre.

Depois disso, o mototaxista foi novamente preso em abril de 2018, quando policiais apreenderam uma espingarda na casa dele. A Justiça reconheceu que não havia provas para manter a acusação e Marcio dos Reis, mas determinou prisão por posse de arma, com pena de dois anos. Após cinco meses, ele foi posto novamente em liberdade, quando começou a sofrer ameaças de morte e chegou a viver fora de Anapu, mas havia retornado recentente à cidade, antes do assassinato.

Comissão pede respostas aos órgãos de segurança

Em nota, a CPT afirma que existe “milícia rural composta por pistoleiros, organizadas por madeireiros e grileiros de terras públicas” em Anapu e pede esclarecimentos ao assassinato do mototaxista. “Com medo, muitas lideranças já saíram de Anapu, outras têm medo de denunciar os crimes temendo ser a próxima vítima. Enquanto isso, a grilagem e o desmatamento avança sobre as áreas de assentamentos criados”, aponta.