No início, o presidente Lula ganhou pontos e obrigou o adversário Flávio Bolsonaro a entrar no jogo, ao fazer o desafio para que ambos quebrassem seus sigilos bancários e fiscais. Nunca se sabe, porém, quem ganha ou perde num campeonato desses, ainda mais numa eleição ainda incerta e nervosa, com Lula e Flávio empatados em 50% no Datafolha.
Desde o fim do primeiro turno, a diferença a favor de Flávio caiu de quatro pontos para dois, depois para um e agora evaporou, traçando duas linhas que tendem a cruzar, a favor de Lula, até o domingo. Mas isso depende do duelo de sigilos bancários e do debate da Rede Globo nesta sexta-feira – além dos indecisos.
O risco de Lula é ter dado um tiro no próprio pé, já que as descobertas da Polícia Federal divulgadas até aqui pela mídia mostram que Flávio construiu uma teia muito sofisticada – e, portanto, difícil de ser rastreada – de contas, sociedades e negócios com manda-chuvas tanto do grupo Master quanto com da quadrilha do INSS. Tudo muito longe de suas contas oficiais e declarações públicas.
Além disso, a decisão sobre o que e como será realmente aberto ao distinto público que vai votar no domingo coube ao ministro do STF André Mendonça, que rapidamente anunciou: não há necessidade de mediação do TSE, logo, de decisão judicial. Já que os dois candidatos se comprometeram a divulgar, que divulguem.
Eles podem divulgar o que, como e quando bem entenderem. Antes do debate? Antes de domingo? Assim, Flávio e Lula podem se sair bem do jogo, simplesmente, não abrindo nada de fato, só o que está oficialmente nas contas para inglês e fisco – e agora os eleitores – verem. O resultado seria, ou será, igual a zero.
Flávio aceitou o desafio por falta de opção, depois da repercussão durante e depois do debate Bandeirantes/Estadão. Era topar ou topar. Do contrário, a pergunta óbvia seria: o que ele tem a esconder?
Ele, porém, fez 19 exigências para abrir suas contas e, quem sabe, desanimar o desafiante. Mas, assim como Flávio aceitou o desafio, Lula dobrou a aposta. Imaginem o grau de ansiedade nas duas campanhas.
A lista de Flávio foi muito além das contas bancárias e declarações de renda de Lula, incluindo, por exemplo, dados da lobista Roberta Luchsinger e de todos os filhos e os encontros de Lula com o banqueiro Daniel Vorcaro, além de voos da FAB e visitas aos palácios presidenciais (no plural). E foi além, retroagindo a quebra de sigilo a 20 anos atrás, ou seja, para abranger a época de mensalão e Lava Jato.
A lista de Lula cobra a quebra de sigilo de quatro empresas do adversário no Brasil: Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, All In One Corretora de Seguros, Bravo Grafeno Tecnologia e Inovação e Bolsonaro Digital.
Além disso, Lula focou na empresa Alcazar Holdings, da Ilha da Madeira, em Portugal. Por quê? Porque a PF descobriu, e a imprensa revelou, que Flávio era “usuário master” de uma conta bancária dessa empresa, associada ao advogado Willer Tomaz, amigão do candidato do PL e investigado como responsável pela lavagem de dinheiro do escândalo do INSS.
Com o eleitorado dividido, literalmente, meio a meio, qualquer escorregão no último debate e qualquer dado sem explicação nas contas oficiais, ou não oficiais, dos dois podem ser fatais. Emoção até o último momento, até a contagem do último voto.





